Arte bonequeira no Ceará: Zé Júlio e a resistência viva do Cassimiro Coco nos sertões
![]() |
| Mestre popular de Itatira e Canindé, Zé Júlio mantém há mais de seis décadas o teatro de bonecos como instrumento de educação, crítica social e preservação da memória sertaneja |
A arte bonequeira no Ceará permanece como uma das expressões mais potentes da cultura popular nordestina. Presente em feiras, terreiros, festejos religiosos e ações educativas, o teatro de bonecos — conhecido em diferentes regiões como mamulengo, João Redondo ou Cassimiro Coco — ultrapassa o entretenimento e se afirma como linguagem de educação popular, crítica social e construção de identidade. Nos sertões, é pelo riso que o povo aprende, se reconhece e preserva sua memória coletiva.
É nesse universo simbólico que se destaca a trajetória de José Barros Pedrosa, o Zé Júlio, considerado um dos grandes guardiões da arte bonequeira nos sertões de Itatira e Canindé.
Encanto precoce e início da brincadeira
Nascido no município de Apuiarés, Zé Júlio teve seu primeiro contato com os bonecos ainda criança, aos sete anos, ao assistir a uma apresentação do bonequeiro Zé Boneco. A experiência marcou sua vida.
“Eu fiquei encantado. Peguei tudo que ele dizia e fazia. Aquilo ficou guardado dentro de mim”, relembra.
Aos 17 anos, em 1959, construiu sua primeira maleta de bonecos e deu início a uma caminhada artística que já soma 66 anos de dedicação à cultura popular.
Da improvisação à permanência
Os primeiros personagens surgiram de panos, sabugos de milho e madeira improvisada, fruto da brincadeira e da criatividade sertaneja. Com o passar do tempo, os bonecos passaram a ser talhados em madeira de imburana, ganhando forma, identidade e durabilidade.
Desde os 22 anos, Zé Júlio vive na região de São Gonçalo, em Itatira, de onde partiu para percorrer comunidades dos sertões de Canindé, levando alegria, reflexão e pertencimento por meio do teatro de bonecos.
Cassimiro Coco e os personagens do sertão
Entre os personagens mais emblemáticos está o Cassimiro Coco, figura irreverente, provocadora e profundamente ligada ao cotidiano sertanejo. Ao longo da trajetória, Zé Júlio reuniu seis malas com cerca de 20 bonecos. Atualmente, trabalha com 12 figuras, entre elas Quitéria, Alma, Cobra e o próprio Cassimiro Coco, personagens que dialogam diretamente com o público e com a realidade local.
Encontro entre boneco e reisado
Por 62 anos, Zé Júlio integrou o tradicional Reisado Boi dos Caretas, manifestação cultural com 109 anos de história. A vivência consolidou uma conexão profunda entre o teatro de bonecos e o reisado. No reisado, o corpo brinca; no boneco, a voz ganha forma. As duas linguagens se encontram no riso, na música, na crítica social e na celebração da vida sertaneja.
Ao seu lado, segue o sanfoneiro Zé Denga, hoje com 86 anos, parceiro de inúmeras jornadas culturais.
“A brincadeira do boneco e a do reisado se completam. Um chama o outro. Enquanto tiver sanfona, boneco e povo, essa cultura não acaba”, afirma.
Reconhecimento e educação cultural
Recentemente, Zé Júlio foi destaque em ações do Projeto Colônia da Tia Nalda, com apresentações voltadas para o público infantil, reforçando o caráter educativo da arte bonequeira.
“Quando a criança ri do boneco, ela aprende sem perceber. É ali que nasce o amor pela cultura”, destaca o mestre.
Registro, memória e valorização institucional
O reconhecimento da trajetória de Zé Júlio também vem sendo fortalecido por ações de pesquisa e registro. O pesquisador e gestor cultural Lennon Lopes acompanha o mestre na coleta de depoimentos, organização de informações e documentação de sua história, com foco na construção de uma biografia e no reconhecimento institucional da arte bonequeira tradicional.
O material está em fase de preparação para encaminhamento ao Conselho Municipal de Cultura e, em 2026, à Câmara Municipal, como forma de valorização oficial do legado do mestre.
“Zé Júlio é um patrimônio vivo. Registrar sua história é um ato de justiça cultural. A brincadeira dos bonecos dialoga diretamente com o reisado e revela a potência cultural da comunidade de São Gonçalo, a mais antiga do município”, ressalta Lennon.
Para o mestre do reisado Erivan Batista, essa conexão entre linguagens é essencial:
“O boneco e o reisado contam a mesma história por caminhos diferentes. Zé Júlio mantém viva essa tradição e mostra que cultura popular é raiz, é futuro e é resistência.”
Aos 83 anos, Zé Júlio continua em cena, provando que a arte bonequeira do Ceará não pertence ao passado. Ela vive nas mãos do mestre, no som da sanfona, nas ruas de São Gonçalo e no riso das crianças de Itatira. Enquanto houver quem brinque, conte e registre, a tradição seguirá viva nos sertões cearenses.

.jpg)





Comentários
Postar um comentário